Revista Concerto – Abril/2017

25 anos de música e amizade

O pioneiro quarteto de violões brasileiro completa um quarto de século rememorando sua história e desenvolvendo novos projetos

Por Camila Frésca

Formado há 25 anos, o Quaternaglia é um dos mais destacados conjuntos de câmara brasileiros e um dos melhores exemplos da vitalidade e da importância de nosso violão no cenário mundial, sendo reconhecido internacionalmente como um dos mais relevantes quartetos de violões da atualidade. O grupo nasceu da vontade de quatro colegas de faculdade de tocar juntos. “Não havia nada marcado, a ideia era fazer um trabalho de música de câmara, um encontro de amigos para tocar, sem nenhuma perspectiva”, lembra Sidney Molina. Alguns meses depois, no entanto, surgiu a oportunidade de se apresentar, dentro das atividades da ECO 1992, na PUC-SP. Foi preciso arranjar um nome para o grupo e marcar mais alguns ensaios. Formava-se, assim, em junho de 1992, o Quaternaglia, com Eduardo Fleury, Sidney Molina, Guilherme de Camargo e Daniel Clementi. Guilherme logo deixaria o grupo para estudar música antiga na Holanda (hoje desenvolve um importante trabalho como alaudista). Em dezembro desse mesmo ano, uma apresentação no Conservatório Musical do Brooklin Paulista marcaria a primeira formação do grupo, com Breno Chaves no lugar de Guilherme. Um ano depois, Daniel Clementi deixava o Quaternaglia, sendo substituído por Fabio Ramazzina. Essa formação do conjunto, com Eduardo Fleury, Sidney Molina, Fabio Ramazzina e Breno Chaves, duraria até 1999.

FAZER UM QUARTETO PARA TOCAR O QUÊ?
Molina conta que o desafio inicial do Quaternaglia foi o repertório. Na primeira apresentação, como não tinham obras suficientes, o quarteto alternou transcrições de Praetorius e Hândel com peças tocadas em duos e encerrou com Toccata, de Leo Brouwer. Sidney Molina revela ainda que foram desestimulados, por pessoas mais velhas, a insistir na formação de quarteto. “Diziam que o repertório era muito pequeno, que quarteto de violões era algo meio estranho. Fazer um quarteto para tocar o quê?”, essa era a grande questão. Nesse sentido, Fabio Ramazzina acredita que a obra de Leo Brouwer foi uma grande fonte de estímulo nos primeiros anos do grupo. Brouwer havia feito suas primeiras peças para quarteto de violões (originais ou arranjadas) na década de 1980 e, no início dos anos 1990, foi uma espécie de motor que levou adiante o conjunto.
Fabio e Sidney, veteranos da atual formação, revelam que no início eles não tinham nem mesmo referência de quarteto de violões e que apenas ao longo do trabalho descobriram a história dessa formação, com grupos como o quarteto da família Romero e o Los Angeles Guitar Quartet. “Mas nossa referência em termos de quarteto eram os quartetos de cordas, e na música de câmara para violão os duos, que estavam mais próximos da gente: o duo Abreu, motivo de veneração até hoje, e os Assad, que já tinham uma carreira plenamente consolidada”, afirma Sidney.
Com repertório original reduzido, a saída foi inovar. O grupo pensava em fazer transcrições de obras a que os violonistas normalmente não têm acesso, como peças de Bach. Com o tempo, descobriram o potencial de trabalhar em parceria com os compositores na criação de novas obras. “Já no primeiro CD, há uma obra dedicada a nós por Estércio Marquez Cunha”, conta Fabio Ramazzina. “Curiosamente, a formação ‘diferente’ do grupo atraiu o interesse de compositores, em especial após nosso primeiro disco, o que acabou gerando uma série de composições”, completa Sidney. Para o violonista e pesquisador Gilson Antunes, o CD de estreia do grupo, Quatenaglia, de 1995, “marcou época pelo pioneirismo, pela versatilidade, pela ousadia e pelo alto grau artístico do quarteto, influenciando toda uma geração da música de câmara com violão no Brasil”. No mesmo ano, ainda foi lançado Antique, com transcrições de peças da Renascença, do barroco e do classicismo.
Em 1997, o Quatenaglia fez sua primeira turnê norte-americana e ganhou o Prêmio Carlos Gomes e, em 1998, tornou-se o primeiro conjunto brasileiro de violões a ser premiado em um concurso internacional, na nona edição do Festival e Concurso Internacional de Havana. O grupo voltou aos Estados Unidos para uma grande turnê em 1999 e, no ano seguinte, lançou seu terceiro CD, Forrobodó. Marco na carreira do Quatenaglia, o disco é fruto da parceria com Egberto Gismonti, que o produziu e lançou por seu selo. Forrobodó marca também uma troca na formação do grupo, com a saída de Breno Chaves e a entrada de Paulo Porto Alegre. Ainda haveria outras substituições – sempre mantendo Sidney Molina e Fabio Ramazzina – com a passagem dos músicos João Luiz, Fernando Lima e Paola Picherzky. No final de 2010 seria estabelecida a formação atual, que está prestes e a se tomar a mais longeva, com Chrystian Dozza e Thiago Abdalla.

O QUATERNAGLIA VISTO DE DENTRO
Os quatro integrantes tocam sempre nas mesmas posições – Chrystian faz o primeiro violão; Fabio, o segundo; Thiago, o terceiro; e Sidney, o quarto (sete cordas). “Entendemos que as posições fixas geram uma especialização, uma vez que cada posição tem um tipo de demanda”, explica Sidney. “O Chrys tem que trabalhar numa região de extremo agudo de leitura e numa localização própria, assim como eu faço no extremo grave, além das mudanças de afinação. Da mesma forma, o segundo violão se parece com um segundo violino de quarteto: tem tanto um lado de reforço harmônico como de alternância de temas junto com o primeiro violão. O terceiro tem uma função harmônica muito importante, é mais ou menos o regente, conduzindo as partes melódicas, harmônicas e rítmicas”, completa.
É possível ter uma ideia do cuidado do grupo com a sonoridade e a interpretação ouvindo seus discos e suas apresentações. Conversando com os integrantes, o artesanato por trás da realização fica patente. O trabalho é pensado a partir da homogeneidade, que se manifesta já no fato de todos os integrantes usarem violões construídos por Sérgio Abreu. Sérgio, aliás, é referência permanente para o grupo, da mesma forma que Edelton Gloeden foi um mentor fundamental nos primeiros anos do Quatemaglia. “Há momentos em que temos que soar como um instrumento só, mas o que acontece dentro da música é muito variado. Às vezes é interessante estimular algo pessoal: quando há solos, por exemplo, é legal ver a personalidade daquela pessoa, e ela passa também pelo som. Mas uma hora todos têm que timbrar como naipe. Essa é uma das coisas fascinantes do trabalho com música de câmara, a mobilidade das funções; você está acompanhando durante vinte compassos e, em seguida, está solando, depois fazendo percussão ou complementando os outros”, comenta Sidney. “A gente ensaia muito antes de ir para o palco ou para uma gravação. Então, durante o processo, percebemos que a música tem mais unidade ora com uma passagem feita de forma homogênea, ora sendo feita com contrastes. Experimentamos diferentes situações e tomamos as decisões de acordo com o que nos sugere a música”, complementa Thiago Abdalla.
O Quatenaglia tem ensaios fixos duas vezes por semana, independente de qualquer agenda. Quando há compromisso ou projeto em andamento, o número de encontros se intensifica. Assim, após sete anos de trabalho regular com essa formação – somados à experiência passada, de pelos integrantes mais antigos -, o grupo atravessa um momento de maturidade. “Somos muito diferentes uns dos outros, seja em relação à personalidade, ao jeito de tocar, à técnica, seja até ao formato da unha”, avalia Chrystian Dozza. “Mas nos conhecemos muito bem, sabemos o jeito que cada um toca e somos muito amigos. É isso o que faz o grupo sobreviver, para além da maturidade e da vontade de tocar.” Já Thiago Abdalla, o integrante mais jovem e último a ingressar no Quatemaglia, afirma que “nunca tinha trabalhado num conjunto que levasse a música de câmara tão a sério”. “Não nesse nível de detalhe, de se preocupar com a articulação e dinâmica de cada nota, a intenção de cada frase. Isso me influenciou como um todo, mudei minha visão como professor, mudei meu jeito de tocar violão solo”, avalia. Sidney Molina diz se sentir privilegiado em estar no grupo desde o começo e reafirma a importância da amizade. “O quarteto começou com quatro amigos que queriam tocar sem nenhuma pretensão, pelo prazer de fazer música, e ainda preservamos esse espírito. Quando não estamos tocando nem ensaiando, estamos conversando, compartilhando a vida pessoal. A experiência do grupo é uma aventura na qual as coisas nunca estão prontas. Isso é algo maravilhoso do trabalho de câmara, pois um grupo maior, como uma orquestra, não tem essa flexibilidade. Se não está bom, não vai sair bom, e aqui só depende da gente. Além disso, nenhum político pode encerrar um trabalho como o nosso”, brinca.

PROJETOS ATUAIS
“A importância do Quatemaglia é singular, pois a partir dele vários outros quartetos de violão surgiram no Brasil”, afirma Gilson Antunes. “O Quatenaglia ajudou a formar todo um repertório contemporâneo para quarteto de violões, por meio de encomenda de novas obras e de arranjos e transcrições próprios. Foi pioneiro em termos de gravações digitais no Brasil, tanto em CDs quanto em DVD. E também é um dos principais divulgadores da música brasileira para violão no exterior.” No total, o Quatenaglia conta com sete CDs e um DVD gravado, e eles já planejam o próximo disco, que deve ser dedicado a compositores estrangeiros, contrapondo-se aos dois últimos lançamentos, Jequibau (2012) e Xangô (2015), voltados respectivamente para a música brasileira popular e clássica. Os próximos compromissos incluem concertos pelo Brasil, uma nova turnê norte-americana, a estreia de obras brasileiras e estrangeiras em projetos especiais e um grande concerto comemorativo, no dia 28 deste mês [adiado para 21/5/2017, às 19h], no Auditório Ibirapuera, no qual esperam celebrar os 25 anos do grupo ao lado de amigos e do público. “Para nós, música de câmara não é aquela reunião fortuita, quando dois músicos são muito bons e se encontram, fazem alguns ensaios e um belo recital. Isso é válido, mas nossa proposta é a de um caminho mais longo, que passa por todo mundo opinar, por experimentar. É demorado, tem que ter paciência. Mas vale a pena”, sintetiza Sidney Molina.