2- Sérgio Abreu

No “Preludio e Corrente” de Vivaldi, peça que consta do primeiro LP lançado pelo Duo Abreu – em 1968, quando Sérgio tinha 20 anos (mas já havia obtido o primeiro prêmio no Concurso Internacional de Violão de Paris) e Eduardo 19 –, é a serenidade do lento prelúdio que deixa o ouvinte com a sensação de que há algo errado, tamanha é a perfeição musical. Não dá para separar os parâmetros do todo: dinâmica, tempo e som formam um tripé compacto e flexível.

Um gradual crescendo conjunto é adicionado à progressão harmônica ascendente, mas é realizado de maneira diferente a cada repetição, sem nunca sair forçado nem chamar atenção para si: é em uma peça simples como essa que se revela a arte de Sérgio Abreu. Por alguma razão, ele parece ser, a partir do violão Hauser, o regente do duo; Eduardo, por seu lado, traz a exuberância do brilho agudo, o verniz espanhol do instrumento construído por Santos Hernández. A música respira através da perfeição técnica e da precisão; a música respira, não há nada padronizado, não há clichês, não há efeitos – é o puro degustar daquilo que é propriamente musical na música.

A geração do Quaternaglia não chegou a ver Sérgio Abreu tocar. Quando o quarteto começou, ele já havia abandonado os palcos para se tornar o famoso luthier. Mas as gravações do Duo Abreu sempre estiveram no horizonte como modelo (in)atingível de música de câmara para todas as fases do grupo. E foi totalmente natural que o Quaternaglia utilizasse, desde o princípio, quatro instrumentos feitos por ele em recitais, concertos com orquestras e gravações ao longo de seus 25 anos.

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Foto: Gal Oppido

Músicos que integraram o Quaternaglia em gravações oficiais, como Breno Chaves, Eduardo Fleury, Fernando Lima, João Luiz e Paola Picherzky sempre utilizaram violões Abreu. A exceção foi Paulo Porto Alegre, que no CD Forrobodó tocou com um instrumento Paul Fischer de 1979. O Abreu mais antigo em gravações do Quaternaglia foi o de Fernando Lima, um instrumento de 1987 que havia pertencido ao professor Henrique Pinto (1941-2010).

Inicialmente utilizando um violão de seis cordas (o n.247, de 1991, o primeiro Abreu canhoto construído), Sidney Molina gravou os CDs Quaternaglia, Antique e parte de Forrobodó, quando passou a utilizar também um violão de sete cordas (o primeiro do gênero construído por Abreu). É o n.359 de 1997, que aparece nos CDs Presença, Estampas, Jequibau, Xangô e no DVD Quaternaglia. Já Fabio Ramazzina utilizou um Sergio Abreu de 1990 (n.197) nos primeiros três CDs, e o Abreu n.474 de 2002 em todos os demais álbuns, incluindo o DVD.

Chrystian Dozza gravou os CDs Jequibau e Xangô – além das participações do Quaternaglia nos álbuns Guitare du XXI siècle, Movimento Violão e Mitología de las Aguas (este último com a Orquestra de Câmara de Havana dirigida por Leo Brouwer) portando o Abreu 621 de 2012, enquanto que Thiago Abdalla atuou nesses mesmos projetos com o seu violão Sérgio Abreu n.463 de 2002.

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Sérgio Abreu tem uma ligação especial com três álbuns do Quaternaglia. A faixa de abertura do primeiro CD do quarteto é a sua extraordinária transcrição das Bachianas Brasileiras n.1 de Villa-Lobos. Vale a pena navegar por este site e procurar, na seção “Gravações”, o seu texto escrito para o encarte do CD Quaternaglia (1995).

Quinze anos depois, o mesmo arranjo, agora revisado, aparece na abertura do CD Estampas (2010), produzido pelo próprio Sérgio Abreu e gravado em Prescott, Arizona (EUA), tendo como engenheiro de som o seu amigo e ex-luthier David Hirschy. A gravação durou dois dias; a edição, feita por Sérgio no Rio de Janeiro, levou dois anos de trabalho.

Sérgio Abreu é assim: uma vez, em um restaurante do Rio de Janeiro, ele escolheu o vinho e – ao experimentá-lo – recusou imediatamente, com a maior naturalidade. “Não está bom, não entendo como deixam constar da carta”. Devolveu a garrafa e pediu outra diferente, sem nenhum constrangimento. Para ele, nada é protocolar – mesmo quando tem tudo para ser…Ele apenas experimentou, sentiu, avaliou, recusou, buscou outra solução melhor – e saboreou! Vale notar que o vinho não estava estragado: estava “sem free musically crown hack graça”.

O intenso trabalho de luthier faz com que sejam raros os seus depoimentos em vídeo. Uma dessas ocasiões foi feita para o DVD Quaternaglia (2006), e consta dos “extras” do recital gravado ao vivo, que pela primeira vez é disponibilizado aqui para um público maior. Nele Sérgio está em seu local de trabalho, a sua oficina de luthier no Rio de Janeiro.

OBS. este post contém trechos revisados de um depoimento escrito para o livro Sérgio Abreu: uma biografia, de Ricardo Dias (p.46-50).